A DÚVIDA DE JOHN PATRICK SHANLEY (2009, DISTRIBUÍDO POR MIRAMAX FILMS)

O Padre Finnley começa a sua missa com um sermão cativante. Oxalá todas as missas a que tivesse assistido fossem assim. Com levantamento de questões. Obviamente, um discurso destes é pouco ortodoxo para a Igreja, que se recusa a ver o problema que subjaz a uma questão tão importante e tão pouco discutida como o da fé e o seu reverso, a dúvida.
Esse ortodoxismo, ou melhor, a falta dele, leva a que levante suspeitas no Colégio de são Nicolau, cuja reitora, a Irmã Aloysius, uma pessoa assaz austera e repressiva, e deva-se dizer deveras beata, daquelas que Eça de Queiroz detestava, envolveu-se numa cruzada para destronar a reputação e o bom nome do Padre Flynn onde o preconceito e a intuição feminina são as armas de arremesso para procurar uma certeza onde não ela não existe, nem onde possam existir factos que a possam suportar. A peça transporta para o cinema uma das características essenciais do teatro, o facto de levantar questões inquietantes, e neste caso bastantes dúvidas. Para mim o essencial do filme é até que ponto podemos julgar alguém sem termos elementos que o sustentem, que o suportem. Isto levou a que muito boa gente fosse queimada em autos de fé nos tempos da inquisição, que parece ser, para mim, o «rótulo» indicado a aplicar à Irmã Aloysius, que violou mandamentos essenciais para um Cristão para aplicar os desígnios do Senhor.
Todos sabemos onde todos este problema vai dar, aos Padres e às criancinhas, neste caso, meninos. O que é bonito, e essa é a beleza do Teatro, é que é preciso intuição, compreensão dos pequenos pormenores, a maneira como as lãmpadas se fundem, como a luz é usada para ilumniar dos personagens. Como as personagens se apropriam para uso imediato de objectos alheios como sentar-se na cadeira, abrir cacifos, as unhas por cortar. Todos esses por menores são essenciais para o desenrolar e o entendimento da história. Em cima de tudo estão as dúvidas, muitas suposições que não são comprovadas pela razão e que não conseguem ser sustentadas, como a questão da fé em si.
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